O Brasil encerrou 2025 com 5.680 empresas em Recuperação Judicial — um recorde, segundo o Monitor RGF, que exclui micro empresas da contagem. Analisando o Cadastro Nacional de CNPJ da Receita Federal, que abrange todos os portes empresariais, o universo é ainda maior: mais de 7.200 registros no fim de 2025 e cerca de 7.600 em abril de 2026.
A FonteData processou snapshots trimestrais dos Dados Abertos de CNPJ desde março de 2023, identificando todas as empresas cuja razão social contém "EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL". Cruzamos esses dados com a Dívida Ativa da PGFN e as operações de financiamento do BNDES para revelar não apenas quantas são, mas quem são essas empresas, onde estão, em quais setores atuam e qual sua relação com o dinheiro público.
2025 bateu o recorde histórico
O ritmo de novas Recuperações Judiciais mais que dobrou em três anos. Em 2023, 915 empresas adicionaram a marcação de RJ ao seu cadastro na Receita Federal. Em 2024, o número saltou para 1.479. E 2025 consolidou o recorde: 2.040 novas empresas entraram em Recuperação Judicial ao longo do ano — uma alta de 123% em relação a 2023.
O primeiro trimestre de 2026 já projeta um ritmo anualizado de 2.112, acima de qualquer trimestre dos dois anos anteriores.
A aceleração é especialmente visível a partir do segundo semestre de 2024. No terceiro trimestre daquele ano, entraram 493 novas empresas em RJ — 60% acima da média dos trimestres anteriores. E no primeiro trimestre de 2025, o pico da série: 638 novas RJs de uma só vez.
Os motores dessa aceleração são conhecidos: juros elevados por período prolongado (a Selic chegou a 15%), crédito restrito para empresas de menor porte, resquícios de dívidas contraídas durante a pandemia e, no caso do agronegócio, a combinação de queda no preço de commodities com eventos climáticos adversos. A reforma da Lei de Falências em 2020, que ampliou o acesso ao instrumento, também contribuiu para o aumento — especialmente entre produtores rurais e pequenos empresários.
A crise migrou das grandes para as pequenas
O dado mais revelador da série histórica não está no total, mas na composição. Analisando as empresas por faixa de capital social, o padrão é inequívoco: quanto menor a empresa, maior o crescimento de RJs.
Empresas com capital social abaixo de R$ 50 mil mais que dobraram: eram 1.083 em março de 2023, são 2.249 hoje — crescimento de 108%. Na faixa entre R$ 50 mil e R$ 200 mil, o aumento foi de 95%. Já entre as grandes, com capital acima de R$ 100 milhões, o crescimento foi de apenas 15%.
Esse padrão se confirma quando olhamos por porte empresarial. Micro Empresas e Empresas de Pequeno Porte somavam 1.037 registros em RJ no início da série (23% do total). Hoje são 2.613 — 34% do total, com crescimento acumulado de 152%. Não por acaso, a Serasa Experian identificou que micro e pequenas empresas foram responsáveis por 74% de todas as recuperações judiciais requeridas em 2024.
| Porte | Mar/2023 | Abr/2026 | Crescimento |
|---|---|---|---|
| Micro Empresa | 513 | 1.457 | +184% |
| EPP | 524 | 1.156 | +121% |
| Demais (médias e grandes) | 3.460 | 4.996 | +44% |
A Recuperação Judicial deixou de ser um instrumento exclusivo de grandes corporações e seus escritórios de advocacia. Para o pequeno empresário, ela se tornou uma ferramenta de sobrevivência — o que sinaliza tanto a severidade da crise de crédito quanto a crescente familiaridade do ecossistema jurídico com o processo. Como observou o Valor Econômico, a reforma da lei em 2020 trouxe uma segurança jurídica maior e as empresas passaram a se valer do remédio com menos estigma.
Os setores mais afetados
Cruzando os dados de RJ com a classificação CNAE do estabelecimento matriz (filtro de capital social ≥ R$ 100 mil para remover CNPJs de capital simbólico), o perfil setorial revela surpresas.
Saúde lidera o crescimento percentual com +126%, partindo de uma base pequena (34 para 77 empresas). A crise de operadoras de saúde e hospitais de médio porte — agravada pelos custos pós-pandemia e pela judicialização dos planos — está refletida nos dados. O avanço das empresas de home care e a concentração do setor deixaram muitos players de médio porte espremidos.
Educação dobrou (15 para 30), com destaque para a entrada da FMU — Faculdades Metropolitanas Unidas (capital social de R$ 1,6 bilhão) em 2025 — reflexo do esgotamento do modelo de expansão acelerada financiada por FIES e do excesso de capacidade instalada no ensino superior privado.
Em volume absoluto, Comércio e Indústria concentram a maioria dos casos — juntos representam 44% de todas as RJs com capital relevante. O Monitor RGF confirma a liderança da indústria, destacando a predominância de empresas ligadas ao agronegócio como usinas sucroalcooleiras, laticínios e frigoríficos.
O único setor que encolheu foi Eletricidade (–56%), graças à conclusão dos processos de grandes SPEs do setor de energia — notadamente várias subsidiárias da Novonor (ex-Odebrecht) e a Renova Energia.
A questão do agronegócio
Com 1.145 empresas com CNAE agropecuário em RJ e R$ 5,7 bilhões em capital social agregado, o agronegócio é um capítulo à parte. O setor acumula crescimento de 76% no período — próximo da média geral — mas com aceleração marcante nos últimos doze meses: entre o quarto trimestre de 2024 e o dado atual, o agro em RJ cresceu 41%, praticamente o dobro do crescimento geral no mesmo período.
Os dados da Serasa Experian corroboram a tendência: em 2024, o agronegócio registrou 1.272 pedidos de recuperação judicial, mais que o dobro dos 534 contabilizados em 2023.
A soja é o epicentro da crise: 522 produtores em Recuperação Judicial, representando quase metade de todo o agro em RJ. O presidente da Aprosoja Brasil, Maurício Buffon, sintetizou o problema em declaração ao Valor Econômico: custos de produção elevados, preços mais baixos da commodity, juros que chegam a 15%–20% nos bancos e crédito restrito formam a combinação que tem levado produtores a medidas extremas.
Em seguida vêm os criadores de bovinos (235 empresas, R$ 721 milhões em capital) e as usinas de cana-de-açúcar (75 empresas, mas com R$ 2,4 bilhões em capital — são operações de grande porte com passivos proporcionais).
A distribuição geográfica confirma o padrão: Goiás (48), Mato Grosso (39), São Paulo (37) e Minas Gerais (36) concentram a maioria dos casos — os estados do arco central da soja e da pecuária extensiva.
Um fenômeno ainda incipiente mas notável: 34 produtores rurais pessoa física (natureza jurídica 4120) já estão em RJ. Esse número era 1 em março de 2023 e saltou para 15 em um único trimestre, entre o primeiro e o segundo trimestre de 2025. É um reflexo direto da reforma da Lei de Falências (Lei 14.112/2020), que incluiu expressamente o produtor rural pessoa física no alcance do instituto — e que gerou tensão pública entre o Banco do Brasil e a OAB sobre a legitimidade de escritórios de advocacia incentivando adesões.
A conta pública
Cruzando os CNPJs em RJ com a base de Dívida Ativa da PGFN e as operações do BNDES — ambos do Portal da Transparência do Governo Federal — o perfil fiscal dessas empresas ganha uma dimensão adicional.
Dívida Ativa Federal
Dois em cada três empresas em RJ (67%) possuem inscrição na dívida ativa da União:
| Tipo de dívida | Empresas | Inscrições |
|---|---|---|
| Dívida Geral | 5.113 | 482.543 |
| Previdenciária | 3.067 | 54.653 |
| FGTS | 1.488 | 6.234 |
Os maiores devedores individuais incluem a Companhia de Alimentos Glória, a CBE — Companhia Brasileira de Equipamento, a Bombril e a Oi. Muitas dessas inscrições acumulam décadas de juros e multas, o que pode distorcer os valores nominais — mas o volume de inscrições por empresa indica um padrão de inadimplência fiscal estrutural, anterior ao pedido de RJ.
Financiamento BNDES
1.766 empresas atualmente em RJ receberam financiamento do BNDES, totalizando R$ 42,8 bilhões em crédito desembolsado. É quase uma em cada quatro (23%).
| Tipo | Empresas | Operações | Desembolsado |
|---|---|---|---|
| Não-Automáticas (diretas) | 65 | 521 | R$ 27,7 bilhões |
| Automáticas (via bancos) | 1.701 | 32.314 | R$ 15,1 bilhões |
O Grupo Oi lidera com folga: somando Oi S.A. e Oi Móvel, foram R$ 12,6 bilhões em crédito do BNDES. Americanas recebeu R$ 2,7 bilhões. O Estaleiro Atlântico Sul, R$ 2,0 bilhões.
Esses dados não implicam irregularidade — financiamento público é instrumento legítimo de política industrial, e muitas dessas operações foram contratadas anos ou décadas antes da crise. Mas o volume de crédito público concentrado em empresas que acabaram em RJ é um indicador relevante tanto para avaliação de risco de crédito quanto para o debate sobre a eficácia de políticas de fomento.
Estados sob pressão
A crise não é uniforme no território. Alguns estados experimentaram crescimento muito acima da média nacional.
Mato Grosso do Sul (+206%) e Mato Grosso (+147%) lideram com folga — reflexo direto da crise no agronegócio. O Monitor RGF confirma: MS teve o maior avanço de empresas em RJ entre todas as unidades da federação em 2025.
O Rio Grande do Sul (+127%) combina o impacto no agro com os efeitos das enchentes de maio de 2024, que devastaram a infraestrutura produtiva de milhares de empresas. O estado fechou 2025 com 507 empresas em RJ segundo o Valor Econômico — 705 na contagem mais ampla que inclui micro empresas.
Minas Gerais (+123%) surpreende pela magnitude do crescimento, refletindo a exposição do estado tanto ao agro (café, pecuária) quanto à indústria de transformação e mineração.
São Paulo ainda concentra 29% do total absoluto, mas cresce abaixo da média nacional (51%).
A boa notícia: quem sai, se recupera
Analisando as empresas que perderam a marcação de RJ entre o fim de 2025 e o início de 2026, o resultado é animador. Nosso levantamento identificou 102 saídas no período, e consultamos a situação cadastral atual de cada uma:
96% voltaram ao status "Ativa" — concluíram o plano de recuperação com sucesso e operam normalmente. Apenas 3% ficaram inaptas e 1% foi baixada. Casos notáveis de saída bem-sucedida incluem a Samarco Mineração (R$ 24 bilhões em capital), diversas SPEs da Novonor/Odebrecht, e o Hopi Hari.
Esse dado é coerente com o levantamento da RGF & Associados, que reportou que 80% das empresas que saíram de RJ no primeiro trimestre de 2025 voltaram a operar sem supervisão judicial. A RJ, quando concluída, funciona. O desafio crescente é o volume de empresas que precisam dela.
O que esperar
Os dados apontam para a continuidade da tendência de crescimento. O ritmo anualizado de novas entradas em RJ não mostra sinais de desaceleração — pelo contrário, os últimos quatro trimestres foram os mais intensos da série.
Três dinâmicas devem permanecer no radar:
Micro e pequenas empresas seguirão como o segmento de maior crescimento. A democratização do acesso à RJ é uma tendência estrutural, não conjuntural, e a Selic elevada pressiona desproporcionalmente quem depende de capital de giro.
O agronegócio dependerá da safra 2025/2026 e da recuperação dos preços da soja. Se os fundamentos não melhorarem, o fluxo de novos pedidos deve continuar acelerando — especialmente entre produtores de médio porte no Centro-Oeste. Como alertou o presidente da Aprosoja: "a crise vai ser muito pior neste ano".
Pessoa física em RJ é o fenômeno mais novo e menos estudado. De 1 para 34 registros em três anos pode parecer pouco, mas a curva é exponencial e o arcabouço jurídico, desde a Lei 14.112/2020, continua evoluindo para acomodar essa demanda.
A FonteData acompanhará a evolução desses dados trimestralmente. Os dados utilizados nesta análise estão disponíveis para consulta via nossa API de dados públicos.
Metodologia · Fonte: Dados Abertos de CNPJ da Receita Federal do Brasil. Critério: empresas cuja razão social contém "EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL" na tabela de Empresas. Validação cruzada com o campo situacao_especial da tabela de Estabelecimentos indica cobertura de ~98%. Snapshots trimestrais de mar/2023 a dez/2025, mais dataset vigente em abr/2026. Análise setorial utiliza CNAE fiscal principal do estabelecimento matriz com filtro de capital ≥ R$100K. Cruzamento com PGFN e BNDES via Portal da Transparência. A contagem FonteData inclui todos os portes empresariais, diferindo do Monitor RGF (que exclui micro empresas e filiais) e da Serasa Experian (que contabiliza pedidos judiciais). As tendências de crescimento são convergentes entre as três fontes.
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